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NEPSO consagra a pesquisa como instrumento pedagógico nas escolas

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"Nosso trabalho faz
sentido em qualquer
realidade, pois o conhecimento é construído a partir do universo dos próprios alunos e professores"

Ana Lúcia Lima

 

Alunos de comunidade Mapuche, do Pólo Chile, utilizam o NEPSO, desde 2006
 

Professora Cristina Lima, do Pólo Paraná, com seus alunos de Ensino Fundamental I
 

Professores de São Paulo utilizam o NEPSO para tratar do tema da diversidade

NEPSO É PURA DIVERSIDADE

Presente em oito estados brasileiros e em quatro países latino-americanos, o NEPSO, às vésperas de completar dez anos, consagra a pesquisa como instrumento pedagógico nas escolas

Conhecido por levar pesquisa às instituições de ensino como forma de contribuir para a educação da população brasileira e latino-americana, o Programa
Nossa Escola Pesquisa Sua Opinião (NEPSO) ganha cada vez mais espaço. Seu
maior trunfo? O respeito à diversidade. De acordo com a diretora-executiva
do Instituto Paulo Montenegro, Ana Lúcia Lima, a base do projeto é utilizar a pesquisa de opinião como instrumento pedagógico, respeitando as necessidades
locais. “Nosso trabalho faz sentido em qualquer realidade, pois o conhecimento é construído a partir do universo dos próprios alunos e professores”, explica.

O NEPSO prevê livre adesão dos mestres e participação de estudantes na escolha dos temas, garantindo comprometimento e aprendizado. Foi assim que Maíra dos Santos, 17 anos, aluna do 2º ano do Ensino Médio do distrito de Tijuaçu, em Senhor do Bonfim (BA), se envolveu com o projeto. Ela integra uma equipe de cerca de 20
jovens que, estimulados pelas ações promovidas por colegas do distrito vizinho, decidiram estender o NEPSO para fora do ambiente escolar.

A trajetória do NEPSO na região começou em 2006. Ao implementar o projeto em Igara, maior distrito de Senhor do Bonfim, apareceram como temas os problemas locais: gravidez na adolescência, ausência de espaço de lazer, alcoolismo e trabalho infantil. Em 2007, o programa foi além. A pesquisa ganhou as ruas de Tijuaçu, cuja população é remanescente dos quilombos. O objetivo era o de verificar se a cultura quilombola estava presente nas escolas. A iniciativa foi bem-sucedida e serviu de estímulo para que os jovens dos dois distritos formassem um único grupo.

Hoje, os estudantes acumulam experiência de quem elegeu, debateu, pesquisou e até levou ao poder público um dos problemas mais graves da região: a poluição da Lagoa de Igara. Para Maíra, é bom participar do projeto porque os estudantes discutem temas relevantes e elaboram pesquisas. “Ele é importante, pois tenta resolver problemas que a gente vê na comunidade”, explica.

Após dois anos de trabalho com o grupo, a professora de artes e coordenadora NEPSO do pólo Bahia, Eliene Silva, ainda se surpreende com os resultados. “Nem mesmo um tema específico de Igara excluiu os jovens de Tijuaçu. Encararam como um assunto do município, que merece a atenção de todos”, comemora.

REALIDADE INDÍGENA
O mesmo envolvimento ocorreu na comunidade indígena Mapuche, próxima a Temuco, no Chile, onde o NEPSO também está presente desde 2006. Essa região tem a maior concentração de indígenas de todo o país e cultiva costumes próprios.

Em razão das características do local, segundo o professor associado do departamento de educação da Universidad de La Frontera, na região de Araucanía, e coordenador do pólo NEPSO do Chile, Guillermo Williamson, a interculturalidade incorporada ao projeto foi fundamental. “A diversidade é um desafio constante, pois as escolas têm estudantes indígenas e não-indígenas,
de diferentes idades e de ambos os sexos”, explica.

Em 2008, o Centro de Educação Integrada de Adultos (Ceia) Lefxaru, em Nueva Imperial, integrado ao NEPSO, desenvolveu trabalho de reconhecida importância sociocultural. Mobilizou alunos de 7ª e 8ª séries do curso noturno, aproveitando aulas sobre ervas medicinais da disciplina Ofícios, que ensina técnicas básicas para determinadas profissões. Foram levantadas informações sobre o uso e a percepção das plantas medicinais, comuns na região e fonte de pequenos negócios.

O projeto proporcionou amplo aprendizado, integrando vários níveis de conhecimento em linguagem, ciências e matemática. Para Guillermo, outro benefício foi associar o aprendizado das matérias do currículo à formação profissionalizante. “Além disso, recuperou áreas do saber da cultura Mapuche, colocando-a numa posição de destaque na sociedade”, afirma.

GRÁFICOS DE PALITO
No Paraná, a pesquisa de opinião em sala de aula foi incorporada até na Educação Infantil. Crianças a partir de seis anos já têm contato com gráficos em pizza e barras de forma inusitada: com barbantes, materiais reciclados e palitos. Segundo a pedagoga de Araucária e Curitiba, Cristina Lima, o importante é que o aluno visualize os temas discutidos. “Ao manipular o material, a criança vivencia a situação”, explica.

Com a informalidade, são apresentados modelos mais estruturados, no computador. A experiência é adotada na Escola Municipal Professora Elvira Bushmann, em Araucária, com alunos de 6 a 13 anos. “Decidimos privilegiar essa etapa da escolarização, pois é a fase em que os valores ensinados permanecem. Se sedimentados, podem render bons frutos”, explica a professora de pósgraduação em educação da matemática da Universidade Federal do Paraná e
coordenadora NEPSO do pólo daquele estado, Maria Tereza Soares.

Dentre os temas discutidos, um de impacto foi o do material escolar. As crianças perceberam que os lápis utilizados na escola não tinham durabilidade e as pesquisas a respeito foram levadas à Secretaria de Educação do Município. O resultado não poderia ter sido mais eficaz: o fornecedor foi trocado, melhorando a qualidade do material.

EXPERIÊNCIA PAULISTANA
A presença do NEPSO em São Paulo registra fortes características da cultura urbana. De carona no projeto da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Fernando de Azevedo Educar para a diversidade, tema de 2008, a pesquisa buscou abordar diferenças étnicas, estéticas, regionais, socioeconômicas e de orientação
sexual dos alunos. A temática integra atividades desenvolvidas por quatro escolas da capital, com apoio da ONG Ação Educativa e financiamento da Delegação da Comissão Europeia no Brasil, para disseminar o estudo da cultura afro-brasileira, por meio de aulas de artes e história.

O envolvimento foi tanto que os 1.500 alunos responderam aos questionários. O
objetivo era o de se abordar a diversidade de forma geral, uma vez que as queixas
de discriminação envolvem não só as questões de etnia. Segundo a assistente de direção, Marina Soligo, conseguir organizar os alunos para a pesquisa ajudou os professores a perceberem que os estudantes podem ter maior responsabilidade na aprendizagem. “Além disso, o trabalho ajudou a estruturar um retrato da diversidade na escola mais próximo da realidade”, explica.

Os resultados também estimularam outras atividades, como a formação do grupo de representantes de sala e grêmio estudantil. Neste ano, atividades como visitas ao Museu Afro-Brasileiro e leituras sobre essa cultura farão parte do cotidiano da escola.

 


 
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