UM DESAFIO CHAMADO QUALIDADE NA EDUCAÇÃO
União entre inciativa pública, privada e sociedade civil movimenta o cenário educacional brasileiro
Nas últimas décadas, a educação brasileira passou por grandes transformações, alcançando praticamente a universalização do acesso à escola. A qualidade, entretanto, continua sendo o principal desafio. “As crianças estão na escola, mas não aprendem o esperado em cada série”, explica a diretora executiva do Movimento Todos Pela Educação, Priscila Cruz.
Foi justamente da necessidade de avançar na qualidade da educação no Brasil que surgiu o Todos Pela Educação, movimento que parte do princípio de que o país só será verdadeiramente independente quando seus cidadãos tiverem uma educação de qualidade. Em torno desse mesmo objetivo uniram-se representantes da sociedade civil, educadores, organizações sociais, iniciativa privada e gestores públicos. “A educação ideal virá quando a sociedade como um todo considerá-la seu bem maior”, afirma o presidente executivo do movimento, Mozart Neves Ramos.
Para ele, a conjuntura atual do ensino no Brasil se deve ao fato de o tema estar sendo tratado como um projeto de governo. “É necessário um projeto de médio e longo prazo e não apenas de um governo”.
Avaliações e metas
Em 2007, integrantes do Movimento Todos Pela Educação estabeleceram cinco metas (veja boxe) para a melhoria do ensino em todos os níveis. O monitoramento constante das metas resulta num relatório anual, que demonstra a evolução alcançada por Estados e municípios. Em 2008, apenas 45% dos jovens com até 19 anos concluiu o ensino médio e, dentre os que estão atualmante cursando esta etapa da educação básica, apenas 10% atingiram a meta mínima de aprendizagem em matemática.
O cumprimento de todos os itens até o ano de 2022, prazo dado pelo movimento, significaria colocar o Brasil no mesmo nível que os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), também conhecida como grupo dos países mais desenvolvidos. Atualmente, segundo índice da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o Brasil está na 70ª posição. “Enquanto o PIB está na 10ª colocação, a educação está numa posição sete vezes inferior”, relata Ramos.
Por outro lado, entre os países mais desenvolvidos no quesito educação – Finlândia, Irlanda, Coreia do Sul e Singapura – além de políticas de longo prazo, são adotadas práticas que mostram claramente que o Brasil anda na contramão. Na Irlanda, por exemplo, são selecionados os melhores alunos do ensino médio para seguir a carreira de professor. Os salários iniciais são atrativos e os jovens são acompanhados durante toda a universidade e nos dois primeiros anos de profissão. “Lá a carreira de professor é valorizada, atrativa e reconhecida”, relata Ramos.
Parcerias bem-sucedidas
Uma das fórmulas que vêm trazendo contribuições para o aprimoramento do ensino no Brasil é a parceria entre os setores público e a sociedade civil. “O encontro dos diferentes setores claramente viabiliza uma educação de maior qualidade”, afirma a coordenadora de programas da Ação Educativa, Vera Masagão.
Foi justamente essa reunião por um interesse comum que aproximou a Ação Educativa do Instituto Paulo Montenegro, resultando em projetos como o Nossa Escola Pesquisa Sua Opinião (Nepso) e o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf). O primeiro promove o uso pedagógico da pesquisa de opinião nas escolas da rede pública e o segundo mede os níveis de alfabetismo funcional da população adulta brasileira.
Vera acredita que o uso de projetos multidisciplinares em sala de aula, método proposto pelo Nepso, seja relevante para incrementar o nível do ensino brasileiro. "O programa incentiva o trabalho coletivo entre os professores, tira os alunos de uma condição passiva, pois participam da definição dos temas a serem pesquisados, e a escola experimenta como o conhecimento pode ser construído de forma planejada", explica.
A geração de conhecimento e a disseminação de informações sobre os desafios a serem enfrentados têm sido fatores importantes para impulsionar a participação dos cidadãos. É justamente neste campo que o IBOPE atua, por intermédio do Instituto Paulo Montenegro. Uma pesquisa feitas em parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que apenas 9% dos brasileiros consideram a baixa qualidade do ensino e o fato de os alunos não estarem aprendendo como os principais problemas da educação no país. Os baixos índices de aprendizagem são apontados como o sexto principal problema da educação no país.
De acordo com Ramos, essa dificuldade em perceber as deficiências do sistema educacional brasileiro é mais uma consequência da baixa escolaridade dos brasileiros. “Grande parte valoriza os ingredientes complementares, como merenda, uniforme, transporte e material escolar e não a questão da qualidade da educação em si”, completa.
Por outro lado, a pesquisa também revela que quase a metade dos brasileiros (45%) está insatisfeita com seu nível de escolaridade. E cerca de um terço dos brasileiros com escolaridade até a 4ª série do ensino fundamental considera a possibilidade de voltar a estudar nos próximos dois anos. Entre aqueles que concluíram o ensino fundamental o percentual é de 55% e, em meio aos que cursaram o ensino médio, o número chega a 78%.
“Quase a metade dos brasileiros têm consciência das limitações impostas por uma escolaridade insuficiente e há uma grande disposição para voltar a estudar”, acredita Ana Lúcia Lima. Para a executiva, criar oportunidades efetivas para isso aconter é um desafio que deve ser assumido por toda a sociedade. |