edição 14 • ano 4 • jul/ago/set 09   | HOME |

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"Será constituído um único índice a partir de indicadores de confiança das instituições
e dos grupos sociais.
É o início de uma nova série"

Márcia Cavallari

 

"O resultado demonstra que as pessoas ao mesmo tempo precisam do nosso trabalho
e confiam nele"

Marcos Palumbo

 
"O regime democrático é valorizado, mas não há uma
percepção clara sobre o que
o Parlamento e os partidos
políticos representam
para a democracia"

José Álvaro Moisés
 

"A Igreja é confiável por ser estável e ter continuidade ao
longo dos séculos"

Wilson Santana

 

 

À PROVA DE CONFIANÇA

Índice de Confiança Social, novo produto do IBOPE Inteligência, mede credibilidade das instituições brasileiras

Querer treinar muito, aprimorar-se sempre e ajudar as pessoas. É assim que o tenente do Corpo de Bombeiros Marcos Palumbo define o perfil dos profissionais que integram a corporação da qual faz parte. Características que são fundamentais para realizar um trabalho digno da confiança da população brasileira. Tema analisado pelo novo produto do IBOPE Inteligência, o Índice de Confiança Social, no qual o Corpo de Bombeiros alcançou a maior pontuação entre 18 instituições pesquisadas em todo o Brasil e a segunda melhor performance quando analisados, em conjunto, instituições e grupos sociais.

Trata-se de um índice cujo produto final é o resumo dos indicadores de confiança em diversas instituições. Para isso, a confiança é constatada em duas dimensões: interpessoal, que tem relação de interação com as pessoas, e nas instituições
temos uma série histórica de credibilidade das instituições em que é possível ver o comportamento da população brasileira em relação a elas“, explica a diretora executiva de atendimento e planejamento do IBOPE Inteligência, Márcia Cavallari.
“Com a nova versão, ao mesmo tempo em que vamos medir a confiança das instituições e dos grupos sociais, a partir dos indicadores individualizados será constituído um único índice. É o início de uma nova série”, reforça.

No meio do caminho

A primeira pesquisa da nova variante foi realizada de 17 a 22 de julho com 2.002 indivíduos com mais de 16 anos em 142 municípios do Brasil. O resultado mostrou que a confiança da população brasileira em suas instituições é de 60 pontos, numa escala de zero a cem. Quando observados separadamente os índices da confiança interpessoal e nas instituições, a pontuação vai para 69 e 58, respectivamente. “Estamos falando de instituições que fazem o funcionamento da sociedade e
colaboram para que direitos e deveres sejam respeitados”, afirma.

De acordo com o estudo, partidos políticos têm o pior índice (31), seguidos por Congresso Nacional (35) e sindicatos (46), enquanto sistema eleitoral (49), governo federal (53) e presidente da República (66) obtiveram pontuações melhores. Corpo de Bombeiros, com 88 pontos, e Igrejas, com 76 pontos, foram as mais bem avaliadas entre as instituições. Na análise do diretor-científico do Núcleo de Pesquisas de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo, José Álvaro Moisés,
os dados apontam para a valorização do Poder Executivo, como o presidente da República, assim como das eleições, em contraposição à desvalorização das instituições de representação. “Este é um signo da cultura política brasileira”, afirma. De acordo com Moisés, sempre houve a desvalorização do Parlamento e dos partidos no Brasil. “O regime democrático é valorizado, mas não há uma percepção clara sobre o que o Parlamento e os partidos políticos representam para a democracia”, explica. Para o cientista político, esse conjunto de fatores representa a baixa qualidade da democracia brasileira. “A representação é o coração do sistema democrático, regime que pressupõe não só o direito de votar,
como também de controlar o que os representantes da população estão
realizando. Sem mobilização, parte dos interesses dos cidadãos ficará de
fora do sistema político”, observa.

 

 

Contexto

O estudo deve ocorrer anualmente, e seus resultados precisam ser interpretados dentro da conjuntura política e econômica do momento em que a pesquisa for realizada. “Constatamos que a confiança é resultado de uma relação de conformidade que se estabelece entre o comportamento ideal e o real de uma instituição; por isso, fatos do dia a dia podem interferir na credibilidade das instituições”, diz Márcia. Há, entretanto, instituições que nunca foram postas à prova, como as Forças Armadas (71), a terceira colocada entre as instituições
junto com os meios de comunicação. “Elas transmitem segurança, apesar de nunca terem sido testadas em momentos de conflitos. Quando acionadas, a população brasileira terá uma expectativa alta em relação ao seu papel”, afirma Márcia. Já os
bombeiros são colocados à prova diariamente, o que significa que o índice de confiança atribuído a eles é ainda mais significativo. De acordo com Palumbo,
somente em 2008, no Estado de São Paulo, foram registradas 506 mil ocorrências.

Para o tenente do Corpo de Bombeiros, é interessante saber como a instituição é vista pela sociedade. “O resultado demonstra que as pessoas ao mesmo tempo precisam do nosso trabalho e confiam nele”, diz. Uma responsabilidade que vem crescendo a cada dia. “Hoje, atendemos ocorrências que em 1980 não existiam,
como os acidentes de trânsito e as enchentes. Os incêndios representam 8% dos nossos chamados”, conta Palumbo. O preparo para um trabalho bem-sucedido passa por aspectos bastante objetivos e outros nem tanto. Entre eles, estão treinamentos e provas, incluindo participações em eventos internacionais e na terceira maior escola de bombeiros do mundo, em Franco da Rocha (SP), assim como preparo psicológico. “Temos de estar muito bem preparados, buscando
experiências e treinamentos novos, dando o melhor de nós mesmos em cada caso, porém com a consciência de que nem tudo está em nossas mãos”, conclui Palumbo.

Já a performance positiva da instituição Igreja perante os cidadãos é vista como consequência da colonização portuguesa para o coordenador da Escola Superior de
Teologia da Universidade Mackenzie, Wilson Santana. Segundo ele, o resultado é fruto de cinco séculos de religiosidade do povo brasileiro. “A Igreja está muito presente em nossas vidas. Desde a época em que os portugueses descobriram o Brasil, as pequenas vilas cresceram em volta de igrejas”, explica Santana. Ele ressalta que a Igreja é simples em sua estrutura e oferece respostas na esfera da
espiritualidade que nenhuma outra área do conhecimento pode oferecer. “Ela é confiável por ser estável e ter continuidade ao longo dos séculos. Mesmo em momentos de crise, ela se revitaliza, trazendo consigo uma maneira de lidar com a realidade da vida”, analisa.

 

Metodologia

Para eleger as instituições que fazem parte do estudo e a metodologia a ser aplicada, foram usadas referências de levantamentos nacionais e internacionais.
“Escolhemos aquelas que tinham representatividade não só no Brasil, mas também em outros países, uma vez que pretendemos fazer a mesma pesquisa na Argentina, no México e nos demais escritórios onde estivermos presentes”, revela Márcia. Além disso, para facilitar o uso comum em diversas localidades, foram utilizadas designações já consagradas em estudos do gênero, como os termos índice e confiança.

A composição do índice foi feita numa escala de quatro pontos, em que é possível medir muita confiança; alguma confiança; quase nenhuma confiança; e nenhuma confiança. No fim, todas as pontuações atribuídas são somadas e divididas pelo número de entrevistados, resultando no índice geral. Segundo Márcia, a pontuação
é padronizada numa escala de zero a cem para que se possam fazer comparações, mesmo incluindo ou retirando instituições do estudo. “Ao longo do tempo, será possível traçar a evolução da confiança da população brasileira em pessoas e instituições”.

Além dos resultados gerais, são produzidos relatórios por segmentações, como renda, sexo e idade, que ficam disponíveis para aquisição via internet. A partir de
2010, as pesquisas serão feitas duas vezes por ano, e já na primeira onda todos os países que integram a rede do IBOPE Inteligência na América Latina se integrarão ao trabalho.



 

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