edição 14 • ano 4 • jul/ago/set 09   | HOME |

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Apesar da tendência de melhora, o otimismo mundial em relação à situação econômica
ainda é baixo

Laure Castelnau

 

No curto prazo, não deverá haver grandes oscilações na
renda dos cidadãos

Sérgio Besserman

 

CAUTELOSOS, PORÉM OTIMISTAS!

Pesquisa WIN aponta percepções da população mundial a respeito da crise financeira internacional e insere um novo capítulo, o dos efeitos psicológicos da crise

A população brasileira está um pouco menos otimista em relação ao país. Foi o que constatou a terceira edição do Barômetro Mundial sobre a Crise Financeira, realizado pelo IBOPE Inteligência em parceria com a rede internacional de empresas de pesquisa Worldwide Independent Network (WIN). Segundo o estudo, realizado no terceiro trimestre com 21.088 cidadãos de 22 países, 29% dos brasileiros acreditam que a situação vai melhorar nos próximos três meses ante 35% e 34% registrados em março deste ano e dezembro de 2008, respectivamente. Não houve aumento significativo de pessimismo no Brasil, porém há percentual maior daqueles que acreditam numa situação econômica inalterada (53%). Esta posição é comprovada pela última pesquisa realizada pelo IBOPE
Inteligência para a Confederação Nacional da Indústria (CNI) em setembro. A expectativa para os próximos seis meses, respectivamente, em relação à própria renda, à inflação e ao desemprego é a de que não haja alteração para 49%, 37% e 30% dos brasileiros. Apesar de 71% declararem que a crise financeira internacional
é grave, apenas 27% acreditam que a economia brasileira será muito prejudicada por ela, enquanto para 52% serão poucos os impactos da crise financeira sobre a economia brasileira.

Segundo a diretora executiva de atendimento e planejamento do IBOPE Inteligência, Laure Castelnau, o Brasil ficou mais tempo otimista do que a média mundial, o que indica que a população demorou a se dar conta dos efeitos da crise. “Mesmo assim, o país ainda é um dos mais otimistas do mundo”, afirma. Semelhante aos resultados do Brasil, a média global mostra que a maioria dos entrevistados na terceira edição (45%) acredita em uma conjuntura inalterada, diante de 35% do levantamento anterior. No mesmo período, 19% dos entrevistados declararam-se otimistas ante 16% em março. “Apesar da tendência de melhora, o otimismo mundial em relação à situação econômica ainda é baixo”, afirma Laure.

Essa percepção faz sentido para o professor de economia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, Sérgio Besserman. Ele acredita que seja um grande equívoco dizer que a crise passou. “Trata-se de um diagnóstico superficial, uma vez que o problema somente será resolvido quando questões de fundo estiverem solucionadas, como as incertezas sobre a moeda de reserva, o dólar; a relação entre oferta e consumo dos países superavitários e deficitários; e o valor a ser cobrado pelas emissões de gases do efeito estufa”, explica. Resolver as incertezas que rondam a economia significa, segundo ele, esperar, no mínimo, até 2014. O economista acredita que, até lá, teremos pequenos ciclos, com alguns momentos marcados por pequenas recuperações e outros por algumas surpresas.

Efeitos da crise

Outro destaque da terceira edição do estudo é o da inclusão do tema efeitos psicológicos, que mediu se os entrevistados sentiram estresse, ansiedade, sono prejudicado e depressão diante da problemática econômica. Na média geral, 40% apresentaram estresse, o mesmo percentual mostrou ansiedade, 26% perderam o sono e 18% sofreram de depressão. “Apesar de os americanos terem demonstrado mais otimismo ao longo do estudo, os efeitos psicológicos da crise tiveram impacto
importante em seu país, com 74% deles declarando ter sofrido pelo menos um dos quatro sintomas”, analisa Laure. Em termos de estresse, o Brasil (35%) está abaixo da média mundial (40%), assim como abaixo da Argentina (42%) e, principalmente, do México (69%).

Renda familiar

Quase metade dos respondentes (48%) acredita que a renda familiar será mantida nos próximos 12 meses, confirmando a tendência das pesquisas anteriores, uma direção na qual Besserman também acredita: “No curto prazo, não deverá haver
grandes oscilações na renda dos cidadãos”. Por outro lado, enquanto 31% acreditam que a situação econômica vai piorar, somente 23% dizem que a renda familiar diminuirá. Mesmo entre as nações com visão mais positiva, o brasileiro apresenta queda acentuada no otimismo em relação à propria renda, passando de 79% em dezembro para 37% em julho deste ano. “Os índices brasileiros das edições anteriores estavam fora do padrão global e apenas agora passaram a se
equiparar”, explica Laure.

Governo e bancos

Os brasileiros conferiram índice 6,1 (numa escala de zero a dez) para a capacidade do governo de lidar com a crise, uma queda em relação aos levantamentos de março e dezembro, quando foram registradas notas 6,4 e 6,7, respectivamente.
“O Brasil apresenta importante redução no índice de confiança no governo, mas ainda está entre os países mais confiantes”, diz Laure.

De acordo com a última pesquisa CNI/IBOPE divulgada em setembro, 52% dos brasileiros avaliam como ótima ou boa a atuação do governo no combate aos efeitos da crise (em maio, esse índice era de 61%).

A média global de confiança nos bancos é maior do que a do governo: 5,2 ante 4,8. Na interpretação de Besserman, esse comportamento é fruto da sensação de que os bancos já perderam tudo o que tinham de perder, mas o governo ainda tem “lição de casa” a fazer, como corrigir as distorções, com políticas fiscais responsáveis. Para os brasileiros, o índice (5,8) permanece estável.

Mercado imobiliário

Ao serem questionados se este é um bom momento para comprar um imóvel, 40% dos entrevistados responderam negativamente. Os Estados Unidos estão entre as nações onde há mais propensão para adquirir uma moradia (49%). Reação contrária à do Brasil, onde mais da metade da amostra (52%) ainda não acha que seja um bom momento para comprar uma casa. “Essa disposição do americano se deve ao preço baixíssimo dos imóveis, enquanto no Brasil existe muita incerteza, pois não há crédito de longo prazo”, explica Besserman.

Consumo de bens e serviços

Os resultados mostram a tendência da população mundial para reduzir custos, começando pelo vestuário (54%), que é seguido por lazer (51%) e eletrodomésticos (49%). Os grupos relacionados à tecnologia (celular, televisão por assinatura e internet) foram os que menos sofreram impactos.

Em linha com os outros aspectos analisados pela pesquisa, de março para julho de 2009 a porcentagem de brasileiros que estão reduzindo as despesas aumentou, equiparando-se à média mundial. “Nesta edição, 80% dos brasileiros já diminuíram gastos em, pelo menos, uma categoria, diante de 67% da edição anterior”, explica
Laure. Ao que tudo indica, os brasileiros, finalmente, deram-se conta de que a crise chegou por aqui.

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